quinta-feira, 26 de julho de 2012

Carência hasteada

A fragilidade pipoca nas timelines. Fragmentos de texto, pedaços de comentários, crônicas , manifestos. Toda sorte de desabafos a serviço da carência feminina. As palavras se espalham no espaço virtual para tentar definir o novo homem e o significado dele na ótica de mulheres construídas sob o mantra da independência e do repúdio à necessidade de conviver com o outro. Mas escancaram, na verdade, solidão disfarçada de opção pelo isolamento e a decepção amorosa recorrente em relacionamentos fracassados. Revelam, no íntimo do dia a dia, o choro intermitente quando a luz do quarto apaga, a dor infinita se o telefone silencia e o soluço flagrante caso o bate-papo na web adormece.

São símbolos de uma era na qual a dificuldade em ceder e avançar no diálogo cotidiano com o parceiro se torna arma de ressentimento para ferir o sexo oposto. O deboche, o rótulo colado nos homens ou o tapinha nas costas depois da leitura de textos sobre quem é o macho do terceiro milênio e como "nós mulheres" somos superiores a ele apenas simulam uma fortaleza feminina para o mundo. Uma capa protetora esgarçada ao simples toque da realidade. Quem sofre quando procura um colo para acomodar a alma entende isso. Mas subjaz na rotina uma insistência frenética para desqualificar toda forma possível de criar laços de afeto com os homens. É um suicídio deliberado das próprias emoções e vontades somente para forjar a imagem de indiferença. E as manifestações virtuais celebram a morte do desejo e do amor.

Tenho lido textos lacônicos sobre a figura do "cafuçú", por exemplo. Apreende-se deles: homem com estilo de se vestir próprio (antiquado, como se diz por aí), com gosto distinto do refinamento encontrado entre aqueles cuja "pegada" é insatisfatória, com predisposição a tratar bem as mulheres, cortejá-las, fazê-las se sentir desejadas. É motivo de? Deboche. Como se as qualidades expostas para agradar o mundo feminino - e, nos textos mais sinceros, os atributos fazem uma tremenda falta, diga-se - fossem uma ofensa. A mágoa de tropeços anteriores esfria a sensibilidade e idealiza parceiros ideais anódinos, inexistentes, criados para serem perseguidos e nunca encontrados. E o cafuçú, título concedido por quem vai passar a vida sem entendê-la, vira o ícone do objeto indesejável.

Observo textos pretensamente autocríticos, nos quais as mulheres refletem sobre como evoluíram a ponto de apregoarem a felicidade sem relacionamento e manifestarem a necessidade mais visível de terem alguém. Escorregam entre a absoluta certeza da autonomia sem amarras e a mais completa carência de compartilhar as emoções. A esquizofrenia de pensamentos e ações é consequência imediata: sonham com o companheiro perfeito, romântico e conquistador, viril e atencioso, independente e submisso na medida certa. Mas cospem na rosa atirada, atropelam gentilezas, fecham-se para o risco da entrega. Cobram dedicação e afeto, mas negam reciprocidade e compromisso. Querem o sexo descartável, mas esperam a ligação no dia seguinte. Atiram-se na roda dos prazeres, mas anseiam pelo príncipe nas baladas. Comportam-se iguais aos homens e querem ser vistas só como mulheres.

No labirinto entre ser, representar e viver, perdem-se. Cegas por idealismos, confundem carinho com babação. Cantada com machismo. Virilidade com rudeza. Atenção com dependência. Delicadeza com fragilidade. Flerte com fraqueza. Sentimento com submissão. Saem às ruas e exigem o direito de ser mulher. E nem sabem o que isso significa. Invocam a primazia da escolha e, na liberdade alcançada, omitem-se ou erram frequentemente porque nunca se deram ao trabalho de completar a frase: "queremos o quê?". Perdidas entre a mente e a ação, afastam homens de todos os tipos. Os desejáveis, os queridos, os errados, os insistentes, os próximos. Os homens.

A suposta conquista deveria alegrar. Afinal, é fruto da caminhada virtual e real em prol da dispensa do sexo oposto. Mas a realidade, maldita, insiste em aprontar. A pretensa independência, indiferença, leva ao choro, ao rivotril, ao jeito amargo de levar a vida. Ao dissabor de manhãs solitárias, noites escuras, vidas pregadas na tela do computador à espera do "oi" desaparecido. À busca pelo prazer sob o lençol sozinha, à inveja da novela com final feliz. Ao sonho de topar com o inesperado e mudar completamente o próprio destino, embora a recepção ao novo jamais seja acolhedora. À experimentação sem freios e desregulada, à autoestima quebrada, à descrença no amor e nos sentimentos. As palavras se espalham pelas timelines e tentam esculpir uma força inexistente, um escudo inquebrantável. Mas são falhas. A bandeira se levanta e a única mensagem visível é: a carência está hasteada.

domingo, 14 de agosto de 2011

Vida e vinho


A vida é um vinho sem tempo. Soçobra na boca dos apressados. Inquieta no paladar de quem sonha. Amarga nos lábios dos incrédulos. Mas respeita a cadência da alma. Ao sabor do ritmo de cada um, envelhece. Ou rejuvenesce, no deslize do riso. Na sapiência da serenidade. No improviso da rotina.

Vinho e espírito são duas fontes da mesma eternidade. Um passeio pelo risco da embriaguez. Um convite ao delírio imortalizado no gole dos atrevidos. O cálice repousa sobre a mesa à espera da mão fortuita. A alma aloja-se no corpo do compasso do gesto ousado. O tremor do acaso revela o âmago de ambos.

Do vinho apegado às paredes da taça, a inconstância liberta o perfume submerso no encarnado. O cheiro inebria, enfeitiça, aquece. É a alcova dos corações frágeis. O calabouço dos egos cheios. A armadilha do destino errante. Na maresia da noite, cada volta pela textura do vidro cumpre um ciclo: a força sobreposta à inércia do descanso, o traslado contra a gravidade até a beira, a queda rumo ao fundo do movimento. É o refinamento efêmero na ante-sala da degustação. O desfile na borda do prazer.

A vida espelha a sina do brinde. O corpo, confiante, luta para manter a alma ereta. Enquanto o coração, oscilante, tilinta as emoções pelo limite dos poros. E, no encontro de dois cálices de sentimentos, o tremor sossega a razão. A dúvida saúda o peito. O receio inutiliza a ação. O desejo peregrino nas bocas é o compasso da volúpia sombreada nas íris. A sede mistura as sensações. E a pele só pede para servir-se de toque. De gole. De combustão. As adegas se escancaram e, sobre a mesa, a sedução impõe: é hora de entornar a existência.

O vinho refuta a indecisão. A vida repudia o vacilo. Sabor só existe para quem prova. Vale nada o tempo guardado se à taça não se chega. Mora no paladar o encontro da expectativa com a realidade. E é nula a existência desprovida de ousadia. A inércia sepulta o sonho das conquistas. Na encruzilhada entre a experimentação e o destino, o futuro exige o caminho do primeiro gole. De audácia. De vinho. De vida.

terça-feira, 20 de julho de 2010

A sentença da íris

Baila no tempo do escuro
A luz de sofrer enamorado
Veste de brilho o inseguro
Despede o breu imaculado
Soçobra no mar da angústia
Nau sem leme em esperança
Se desejo se passa por guia
O sonho às águas se lança
Na travessia ao porto seguro
O amor é percurso sagrado
Alma saciada por alegria
Destino prescrito na crença
Um verso deixado em desuso
É ardor de essência ceifado
A íris pela estrela se avia
Se amar é do réu a sentença

domingo, 9 de maio de 2010

Ensaio

Deitei no chão da saudade
Em dia de branco e de rei
De súdito, fui uma parte
De majestade, nunca serei
Sei só o andar da vontade
Tua vida, reverenciei

Encolhido no pé da ausência
Na margem do ar e desatino
Respiro teu olhar de destino
E padeço cegueira e carência
Por reza e pecado, me assino
Te amar virou minha doença

Nem quero cura nem vacina
Não há anticorpos pra alma
Quem ama se condena à sina
Sabe que à morte se entrega
Viver, a própria vida ensina,
É existir para render a amada

E apertado no berço do adeus
Embalo o amanhã de um sonho
Escuto a voz de um eu todo meu
Mas é teu olhar que componho
Em linhas de veias do meu breu
Eternidade é a rima que ensaio

terça-feira, 13 de abril de 2010

Nunca li

Nunca li nenhum poema
em que versos não rendessem
tributo ao teu riso

Nunca li nenhum romance
em que o amor não mostrasse
o fruto do teu beijo

Nunca li nem ouvi
canção que não tivesse
partitura da tua voz

Nunca li nem senti
parábola sem que houvesse
a serventia do teu nome

Nunca li nem contemplei
céu que dispensasse
a alma dos teus olhos

Nunca li nem admirei
oceano que não fosse
o mar da tua íris

Nunca li nem senti
luz que não viesse
no raiar da tua pele

Nunca li nem percebi
breu que não lembrasse
a dor da tua ausência

Nunca li nesses dias
que só há felicidade
se o destino te alcança

Nunca li nesses meses
que a vida toca o sonho
quando você me abraça

Ah... o que eu nunca li nem aprendi...

E o que eu nunca lhe neguei e devia...

O peito, quem finca, ali, nem vê

Que o amor me arde insone

E que o sempre nunca esgota

Pois viver-te me consome

Sou escravo se me és rota

Alforria a sede da minha fome

Sirvo a paixão que te devota

Me tranca ali nesse teu nome

sexta-feira, 5 de março de 2010

Aparte

Somo vazios
e tenho nada

Grito silêncios
e não sou ouvido

No universo do quase
tudo é parte

Abraço-me ao vento
e aperto a falta

Tateio monólogos
e toco a saudade

Provo beijos
e me ignoro

Vida sem tu
É só um aparte
Entre ser teu amor
E morrer solidão

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Zéfiro

Gira no limbo o desejo tácito
De sorver-lhe a alma indiferente
Queda no olhar a emergência
De tê-la onde repousa o sonho
Fito-lhe nos olhos a cegueira
Da minha torpe vista nula
E enquanto o gesto silencia
De desejo o peito urge

Zéfiro que risca o tempo
Conduz-me ao breu da solidão
A ambição selada em medo
Reescreve a frustração
A ânsia rascunha o peito
E a lágrima tatua o rosto
O horizonte perde as cores
Se você não me quiser

Leio o futuro no teu cheiro
A fragrância de um destino
Busco a letra de um beijo
Na partitura da tua boca
Mas o receio me vagueia
E a insegurança me repele
Se eu pudesse moldaria
O amor com nossa pele

domingo, 18 de outubro de 2009

reticências

e lá vem ela, a vida
na estrada da incoerência
um trecho sinuoso
um atalho
um caminho improvisado
de repente, becos sem saída
onde o retorno é impossível

na encruzilhada do destino
um passo é decisão
uma via corta o tempo
e sangra de dores o coração

não há certezas no sentimento
nem verdades nas ilusões
somos entes vagos
reféns de acasos
subalternos a sinas
algemados a medos e pretensões

coração se bandeia e recusa
corpo oferece e se omite
alma fraquejada por promessas
em silêncio

nas lágrimas sobrepostas
o querer se impõe
na saudade revelada
o cheiro afaga
e se a realidade pede laços
titubeia-se de covardia

enamorada fica a aflição
quando voa-se na fragilidade
se o encontro é com a solidão
o sofrimento risca o peito

havia futuro em teus olhos
e caminhada no teu sorriso
mas ventou pressa e a urgência
assoprou o sonho no horizonte
a linha dos dias enovelou-se
na incerteza da tua ausência

seca a boca sem teu beijo
cegam os olhos sem teu brilho
morre a carne sem teu calor

a alegria cobra a brincadeira
e a madrugada recorda-se
é metade sem tetéu

hoje sou choro nada mais
no aluguel das recordações
no meu baú de emoções
eras o meu porto de paz

vida de aventuras
prazeres inconseqüentes
descobertas e segredos
sinônimos de felicidade

meu amor se escuda
mas não morre, é semente
tu se vais, eu receio
e me abraço à saudade

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Emudeço

Desconheço o cheiro
Flores, orvalho, mel ou essências
Ignoro a temperatura
Calor, arrefecido, frio ou fervor

Tampouco sei das manias
Pisca, estala, morde ou foge
Passo ao largo dos gostos
Cinema, música, bares ou academia

Ando por fora da agenda
Trabalha, estuda, dorme ou atrasa
Nem mesmo suponho o humor
Ri, sofre, gargalha ou chora

Quem dera saber os segredos
Confessa, discursa, conversa ou nega
Pudera dominar teu traquejo
Rebola, desfila, dança ou surrupia

Não tenho ciência dos teus dias
E vivo no tempo da expectativa
A esperança me serve de guia
Na escuridão que é tua ausência

E, no breu, eu te recrio
Na metamorfose do ensejo
Onde há sonho, não silencio
Emudeço carência a desejo

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Posso?

Posso te ter de olhos
Fechados
E sentir tua pele
Calado
Beber tuas lágrimas
Num verso
Chorar tua ausência
Num passo
Sorrir teu charme
Por perto
Tocar tua índole
Fácil
Viver teus dramas
Inerte
Torcer tuas dores
Vingado
Andar teu caminho
Inebriado
Bater teu peito
Rarefeito

Passeio pelo teu tempo
E nada me faz sentir pressa
Eu só temo
Não durar os teus dias

Rogo ao destino
A concessão do impossível
Numa mão ponho a reza
E peço o pecado
Doce sabor amargo

Eu quero tua dimensão
Raptar o futuro
E te dar de presente
Minha eternidade

Eu ouço tua voz
E sei
Que a natureza canta

Queria um espaço entre teus sonhos
Um quarto da mente
Uma cama junto a teu sorriso
Tuas manias como cobertor

E na profusão das palavras
Equilibro as letras
E derrubo a dor
Sofrer não te rima
És vida que anima
A parte de dentro
Aquece a contento
Minha sede de amor

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