segunda-feira, 8 de junho de 2009

ladrão de sentimento

Velejo em busca
de emoção
A minha sina
é conquistar
Quando avisto
um coração
Já me preparo
para ancorar

Refaço a rota
da minha nau
Procuro a praia,
fujo do mar
Quero teus beijos
em terra firme
O meu destino
vira te amar

Descubro a ilha dos teus desejos
No teu sorriso, chego a voar
Sem ter juízo é que me vejo
E sem limites torno a sonhar

Te faço juras em cada
abraço
Prometo o céu
pra te ninar
Nas nossas vidas
eu dou um laço
Que nem o tempo
vai desatar

Mas de repente
a eternidade
Vira uma gota
em meio ao mar
Do que era sempre
fica uma parte
E uma partida
a lamentar

Levanto as velas das seduções
Embarco sem te ver chorar
No convés, ponho tuas emoções
Há outro porto a me esperar

Meu peito náufrago
quer um resgate

Minha vida banza,
não enjoar

Mas se no rosto,
um olhar me bate

Aprumo a alma,
vou navegar


Não quero dinheiro
nem ouro
O que é do mundo,
dou ao vento
A tua alma
É o meu tesouro

Eu vou roubar teu sentimento

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Olhos de horizonte

Olhos de tarde fria que pede cobertor de braços
Olhos de harmonia entre vento e arrepio
Olhos de certeza, de promessa e destino
Olhos de vida em plenitude
Olhos de pecado sem penitência
Olhos de mandamento sem pudor
Olhos de valsa, de salão, de passos e compasso
Olhos de música
Olhos de eternidade que se espalha no peito
Olhos de colocar madrugada para domrir
Olhos de cascata que corta o ar
Olhos de orvalho que acaricia as flores
Olhos de desabrochar paixões
Olhos de coração acelerado
Olhos de onda que sacia a praia
Olhos de beijo em fim de tarde
Olhos de lua de amantes
Olhos de seresta e janela
Olhos de fogueira de são joão
Olhos de cheiro no pescoço na rede
Olhos de água quando se tem sede
Olhos de carta de amor rasurada
Olhos de última palavra da poesia
Olhos de métrica
Olhos de lareira no frio
Olhos de passeio no parque
Olhos de leitura ao pé de uma árvore
Olhos de domingo em casa no sofá
Olhos de filmes de romance com final feliz
Olhos de água de coco no alto de Olinda
Olhos de chuva no píer à meia-noite
Olhos de sorriso sozinho
Olhos de ansiedade que antecede a surpresa
Olhos de auto-estima recuperada
Olhos de chocolate na ponta dos dedos
Olhos de emoção com autenticidade
Olhos de jantar à luz de velas
Olhos de medo de amar
Olhos de declaração em público
Olhos de abraço com medo do escuro
Olhos de vinho no terraço em noite chuvosa
Olhos de primeiro fondue da mesa
Olhos de perdão aceito
Olhos de carinho após o amor
Olhos de mãos juntas
Olhos de sussurro e segredo
Olhos de sentar no chão para brincar
Olhos de futuro.
Olhos de lágrimas de alívio
Olhos de saber viver

Olhos de mundo

Olhos.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Réstia

E do quase
todo o nada me resta

da voz,
o silêncio
do toque,
o vento
dos olhos,
a réstia

a boca viaja
a outro porto
e a quem reporto
meu lábio d’água?

eu só lamento
que nem o tempo
nos aninhou

e agora às pressas
te barco súbito
já deslanchou

eu cavo a memória
à tua procura
e em cada loucura
não mais te acho

eu abro a porta
e vejo a agrura
e não aventura
nos meus passos

dói
corrói
destrói
cada tijolo de paixão
que sobre o meu chão
ficou cimentado

ah essa dor
que se mostrou amor
e agora se esconde

casamento carnal
lua de carnaval
sol de amantes

atrás do muro
ficaram sonho
e desencontro
de previsões

chegaram o choro
o engasgo
e a desilusão

perdi o rumo
e no meu prumo
falta o chão

fucei destino
brechei vidas
e enriqueci

guardo o tesouro
de poder dizer
que te vivi

felicidade
por sina
como a
vida quer

foi provar
tua alma
de menina
e mulher

me apego à saudade
para não te esquecer
és a sombra de amor
que só eu posso ver

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

deserto...

... dois corpos e um só ser
no encontro fugaz do desejo
no calor da fria madrugada
a insanidade gerou o prazer
no improviso de cada detalhe
despudor para não esquecer

entre palavras, goles e anseio
bocas, mãos e carícias
o refúgio na ponta dos dedos
o alimento, desculpa e abrigo
o receio, desafio do tempo
a alma, coragem e castigo

versos de beijos em tuas ancas
suspiros de rimas em segredos
no vai e vem de nossa ousadia
minha estrofe veio de tua tez
poesia, paixão e insensatez
na ponte entre a noite e o dia

no teu compasso, vigorei
fui amante, vassalo e rei
no trono de toda luxúria
no meu pecado, você reviveu
provou, se doou e elegeu
o deleite a nossa tirania

e nos teus braços de descanso
eu desnudei o meu espírito
soneguei riso e até pranto
vi nos teus olhos o remanso
no teu carinho, meu retiro
e me abriguei no teu encanto

mas teu destino se esquivou
e minha estrada se perdeu
para o caminho do ardor
a tua vista me escapou
no paladar de quem se deu
essa distância é dissabor

voa agora em mundo aberto
que me equilibro em ilusão
se a felicidade não é perto
te oferto o céu da vastidão
eu continuo aqui deserto
com você no coração...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Dedicatória.

O mundo cabe em um suspiro. E a vida mora em um beijo. A realidade é um quadro invisível a toda forma de olhar forjado na razão. O raciocínio tropeça. É um espectador cego diante da paisagem da existência. Quem pensa não vê. Quem vê nem sempre sente. Quem sente é o próprio universo dentro de um ser. Sentimento é liberdade para qualquer cárcere. A emoção destranca grades e dor. Subjuga algemas e tristeza. Alforria escravos de rotina e medos.

A humanidade perambula vesga pelos corredores do hábito. E padece inerte aos atalhos das oportunidades. Na esquina do costume com o inesperado, os gestos repetem um padrão: abraçam o vazio menos doloroso apelidado de certo. Subtrair riscos, cortar impulsos, sonegar desejos. Eis a lição decorada na cartilha de quem não lê o prazer. Errado é financiar vontade, multiplicar ousadias, aflorar anseios. A enciclopédia herege dos desafios devia se mostrar atraente. Os capítulos desamarram pudores. As palavras encurtam amores. E as letras desfilam em cada linha o poder de dar sentido a vidas. Mas nem todo ensinamento escapa ao receio. Mudança rima com equívoco no glossário do conformismo. E, para a estrada da afoiteza, o mundo recolhe o passo.

O manual da vida contém uma única doutrina: viver dispensa quaisquer regras. O futuro sobrevive no agora. O passado se alimenta de esquecimento. Basta ao presente nortear a caminhada de quem busca ser feliz. O tempo ensina que os moldes caem, um a um, no revezamento do dia com a noite. Os dias excluem a eternidade. Os meses apagam os rótulos. Os anos demitem a imortalidade das juras. Só o arrependimento amadurece na proximidade do fim.

O tempo são como folhas que se despedem das árvores no outono: nem retornam aos galhos, nem se fazem jovens novamente. Estão fadadas ao solo. E nunca mais serão da mesma primavera. O diferencial da vida está no sopro que cada um dá ao próprio destino. Que vale mais: a brisa que levemente ajuda a planar sentimentos e garante um pouso tranqüilo sobre o chão? Ou a tempestade capaz de sacudir para cima qualquer trajetória e fazer a lucidez esquecer que existe um chão? A lei dos homens pede a prudência. A sociedade exige o limite. Mas a sanidade não toca o céu. E o mundo precisa voar.

No limite do auto-controle, as algemas atendem pelo nome de juízo. Bom senso, cautela, discrição, reserva, prudência. A língua é eloqüente para silenciar os sentidos. Amputar vontades, aplacar ímpetos, subnutrir sonhos. Mas ninguém sobrevive de prisões. A alma se contorce para ser livre.

Levamos no rosto o currículo das nossas opções. Sorrisos adocicados, lágrimas amargadas, indecisões coradas de experimentações. Cicatrizes podem ser feias, mas desenham nossas atitudes. Rugas espantam, mas definem nossas escolhas. Cabelos brancos, calvícies, cachos enrolados. Termômetros de alegrias e tristezas. Marcas e sinais da caminhada chamada vida. De que vale a pele lisa de uma história em branco?

Todo pensamento dever ser relido ao contrário. A vida pede o romantismo do acaso. E ele está nos olhos de quem vê. Com a alma.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Insanidade

Vejo a insanidade invadindo meus poros. Minha lucidez seqüestrada. Minha regra desfeita no caminho do momento. Meu combalido sentido de direção violentado pelo acaso. A nau anda errante. Mareja, mas não aporta. Viaja, mas não chega. E em cada porto, deixa uma carga de devaneios. Ninguém sobe. Ninguém fica. São todos passageiros de um desatino ao sabor da maré.

Navego os dias sem mapa ou rota. Minha carta de navegação é a alforria de cada dia. Sôfrega. Virtuosa. Trôpega. Sinuosa. Assim vai minha vida. Assim segue meu labirinto indigesto por ironia tachado de mente. Circulo ilhas, contorno continentes. Nada de porto seguro. Nem porto sem rumo. Nem espaço para ancorar. A minha milha é a ilusão. De quem sou, do que faço, do que penso que o mar me revela quando esconde sua profundeza. Na superfície dos dias, a espuma beira a eternidade. Nada é real. Nada é concreto. Tudo se desfaz no toque de quem quer a certeza. Em águas cristalinas, não nadei com freqüência. E nem mesmo a prudência me impediu de sonhar.

E o que me importa a correção da praia? Água de um lado. Terra do outro. A lei respeitosa dos movimentos calculados. Um vai. O outro cede. Um aparece. O outro submerge. Convivência de dias. Empatia de noites. A inércia como tempero de uma vida insossa. Eu quero a tempestade das almas. A orgia dos maremotos. A falta de ordem na desvirtuada sinfonia dos ruídos que a vida arrota. Sem ar. Sem vícios. Sem pulmão para se deliciar com o vento. Quero o balançar sem enjôos do inconsciente. Da certeza fortuita. Da dúvida magra e repelida. Fastia-me sofrer nas rédeas. Avilta-me corroer o intestino com os poros fechados pela decência. Carece-me a falta de chão.

O passear louco de quem não sabe qual passo dar é tão somente a receita sonegada pela felicidade. Atalho do prazer. Menor distância para a luxúria. Infiltram-me dores e odores de ser incerto diante da fraude apelidada de razão. Ninguém domina a imortalidade dos momentos. Palcos do improviso. Salões da dança ilógica. Corredores de parâmetros rasgados por quem se guia de olhos vendados para o amanhã.

Nem sei mais quem sou. Nem o mar me diz. Nem os ventos assobiam. Nem a terra desenha. As águas são turvas na aventura pelo desconhecido. Escondem pedras. Cobrem vidas. Não saciam sequer a vista, enganada pelo balanço conveniente e lúdico de ondas sem qualquer propósito. Uma vida regada pela insanidade exige mergulhos constantes para descobrir o que o mar esconde por baixo da opaca camada de rótulos sociais.

A cada imersão, e as águas se reinventam. A cada descida, os dias se banham em novo sentido. A cada risco, a coragem risca o que um peito arisco se furtou a rabiscar nas páginas do agora. Eu me acorrento a um tempo que não anda. A um dia que não finda. A uma era que não sucumbe. Quantas madrugadas a dúvida há de acolher? A ojeriza do controle reescreve a sina de ver o mar. E a minha loucura clama a hora de navegar.

domingo, 19 de outubro de 2008

Tempo

O tempo chora os dias idos
e enerva-se com o amanhã
todo minuto é a ponte
entre emoções visitadas

nasce o segundo da morte
do instante passado
cresce a vida nas horas
feitas de pó e de vento

mente quem toma pulso
de incertezas cronológicas
o tempo passeia livre
das amarras do meu tempo

se domino um momento
breve é o meu controle
movediça e tão efêmera
imortalidade me escorre

eu escrevo e marco meses
mas não os aprisiono
o calendário agendo e tento
e me atraso em cada sonho

se me adianto e penso
e algemo e ordeno
sorrio e choro e magoou
canso de cronometrar

não toco futuro longe
ou guardo passado perto
vivo hoje indiferente
pelo destino encoberto

e embarco na balsa da vida
sem qualquer faz-de-conta
o acaso o leme me aponta
o agora é quem me duvida

e nas ondas do tempo parto
um olhar em cada partida
na volta para um espaço
refaço minha guarida

sem lágrimas pro que se foi
sem sorrisos pro que virá
canonizo a surpresa
o presente é meu altar

ancoro o efêmero e marco
meu tempo é o que vejo
minhas horas o que sinto
meus minutos um desejo

o meu segundo é a sina
na eternidade de um beijo

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Oferecer

(Ar) risquei oferecer
no livro do tempo
das nossas histórias
mas tua recusa
rasgou o verbo
entre nossos destinos
quatro sílabas ao ermo
repaginaram o prumo
dos meus versos

despetalada a fé
vagueou na descrença
do teu silêncio
reescrevi o dogma
de ler meus prazeres
na tua indiferença
minha caligrafia
soletra a crença
na felicidade

no choque do adeus
revisei as dores
da contramão
e apaguei temores
ditados pelo caminho
hoje há quem ore
na cartilha conjugada
pelas cicatrizes
de que desviei

arquivado o sufixo
que traduz o meu ser
feito página em branco
não consigo rever
as linhas de engano
que meu coração
rabiscou a perder
no rodapé da sorte
anverso de você

da entrega testemunhada
lapidei o infinitivo
despedacei oferecer
e redigi outra sina
na trilha da nova vida
meu texto me ensina
romance recapitulado
em cada oferta só vinga
quando amor se combina

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Binômios

Praia e mar
e viverei meus dias sob o ardor de tua pele escaldante
Chuva e frio
para banhar de prazer tua cútis encharcada de luxúria
Céu e terra
e voarei na superfície de teu olhar polido de horizonte
Vento e tempestade
para sacudir tuas certezas com meu fervor de balbúrdia
Preto e branco
e a teimosia oscila entre o retrato e tua vivacidade tola
Flor e pedra
para quebrar o gelo enraizado em tua fotossíntese
Terra e água
e beberei a aridez na tua distância momentânea e vã
Choro e riso
para reinventar as emoções congeladas no teu rosto
Força e inércia
e moverei tua órbita para perto do meu universo solitário
Sol e lua
para abraçar luz dos teus dias no breu das minhas noites
Palavra e letra
e discorrerei a história dos desencontros entre silêncios
Verbo e substantivo
para batizar os nomes dos beijos que ainda não tive
Fim e começo
e reescreverei o destino com as lágrimas do meio
Foto e movimento
para imortalizar a indiferença no álbum do esquecimento
Público e privado
e trancarei tuas juras desfeitas na intimidade do meu limbo
Alma e sintonia
para compor sonetos no espaço da tua compreensão arredia
Entrada e saída
e sobreviverei acima dos binômios que a estrada constrói
Eu e você
para acabar com a fábula de dois corações partidos...