quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Ruge

Ruge o peito imaculado
Na canção que eu te fiz
Chora a mão que ainda insone
Eu te dei, você negou
Rezo só que dor consome
Solidão que jamais quis
Mordo o tempo fatiado
Por amor que se atrasou

Herdo o tudo esvaziado
Só poesia me restou
Verso quando ama come
As sobras de um infeliz
Peço a rima que retome
O que a jura não vingou
E meço os dias no aguardo
Do amor que nos condiz

Caça o olhar ventilado
Pela rima que assoprou
Passa pelo beijo e some
A minh’alma que foi triz
Morre no passado o nome
Que de mel te batizou
Provo do minuto o fado
Que a vida não dá bis

Rosna o passo baqueado
Pela dama de verniz
Pisa no chão que se esconde
Do caminho que já secou
Vento quero que te conte
Excomungaste à raiz
Um instante eternizado
Que num amor se plantou

Late o berço naufragado
Por quem foi e não voltou
Pede o sonho que se banhe
Na ausência em que jazi
Pesadelo já não dorme
Por um canto que faltou
Pra um tempo inacabado
Tu partiste, eu me parti

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Riso solto

O teu sorriso corre solto
Plana alto em madrugada
Espalha charme numa brisa
Voa na palavra dada

O tempo embarca invisível
Saboreia apreensão
Perguntas calam o indizível
Se mesclam na confissão

Eu te descubro e te invento
Num sonho de liberdade
Anseio hora e ilusão

De visitar o teu encanto
Subir ao céu da vontade
E alçar vôo na paixão

Solidão

Solidão é se atirar em poço
que não tem fundo
E descobrir na queda
o fim do mundo

É confinamento
em prisão sem grade,
dar cárcere à vida
e alforria à saudade

A minha dor é procurar
sol no breu da noite
e fazer da esperança tola
a luz de um açoite

E não há alma fina
Na pancada fria
Da escuridão
Onde falta vista
Sobram agonia
E indecisão

A minha dor é refrão teimoso
de uma canção infinita
E desafinada
Desponta em nota solta
Dança no vazio
E tropeça no nada
No salão da vida,
Passo sozinho
na covardia
desavisada
e bailo morto
na ressurreição
de qualquer balada...

Toda palavra sincera
é um poema
Atravessa o papel,
consome e queima
A boca livre do seu portador

Leva meu coração
contigo
Que no peito não há
Mais abrigo
Para quem demitiu
o amor...

domingo, 14 de setembro de 2008

Cinco segundos

São cinco segundos
Dos meus olhos
À tua alma

São cinco segundos
Do meu desejo
À tua sensatez

São cinco segundos
Do meu silêncio
À tua ironia

São cinco segundos
De minha ilusão
À tua nudez

Insisto por cinco segundos
Na eloqüência do ardor
E você, da mudez

Anseio em cinco segundos
Um vulto de heresia
E você, de sisudez

Se por cinco segundos
Eu tomo teus olhos
De vez

É por cinco segundos
Que o meu desvario
Subtrai lucidez

Se por cinco segundos
Eu só possuísse
Tua tez

Viveria cinco segundos
No tempo de quem
Se refez

Seriam cinco segundos
De luxúria, paixão,
Embriaguez

De quem na foz da loucura
Desaguou coração e
Pelo risco se afez.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

De passagem...

Arrisco um verso
sem medo
de recesso

Belisco o tempo
a contento
do vento

Embalo a vida
esquecida
na ferida

Vivo o agora
sem demora
vou embora

Só não morreu
quem foi um eu
enquanto viveu

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Costurando...

Cedi à seda
De uma paixão que alinha
Transformei em agulha
A textura d’alma minha
E costurei meus dias
No teu destino

Com os fios dos teus olhos

Tricotei um cobertor
Fiz do abraço um tecido
E o meu aquecedor
Em que me protejo do frio
Onde não há teu amor

Sinto a maciez do algodão

No toque dos teus sonhos
E me é leve a tua mão
Quando cose o linho
Que forra meu coração
E o borda em teu ninho

Eu te invento em botão
Para preencher a casa
Da vestimenta que uso
Quando sinto que a razão
É linha que se desata
Na emoção do teu riso

Aliso tua pele de lã
E te estofo inteira em desejo

Entrelaço a noite com a manhã
No vestuário só do teu beijo
Me esqueço de uma vida sã
Que se descose no devaneio

Nossos corpos traçam luz
Adornados em eternidade
Na linha de um flerte você seduz
E une em nó as duas metades
Que se emendam em ponto-cruz
Entre espíritos e a vontade

Não tem espaço a traça
Que não traça nossos fios
Não há terreno pra ameaça
Que amedronte nosso brio
O que se sutura na graça
Desgraça este desafio

E se o corte insiste
Dividindo a nossa malha
Crio novos modelos
De uma vida que se retalha
Sem rasgar sentimentos
Se renovando com a batalha

Emendo as fibras soltas
E amarro teu corpo ao meu

Uno matéria, costuro planos
Em fazenda que me prometeu
Cobrir o futuro com um pano
Que fez da estampa você e eu

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Dirigir

Quero escrever como dirijo um carro. Ir de uma faixa a outra apenas com um leve esforço de mãos habilidosas. E olhando, furtivo, no retrovisor para evitar transtornos. Não! Para escrever não basta isso. O retrovisor, muitas vezes, nos mostra imagens que imobilizam as mãos e vencem nossos esforços.

Insisto.

Quero começar e terminar uma linha do mesmo jeito que vou de carro de um destino a outro. Mas, toda vez que começo a escrever, surgem novos caminhos, novas avenidas, novas estradas. Acabo perdendo a minha rota e me descubro sem destino.

Persisto.

Quero saber o que vou encontrar quando virar a esquina. Se existe um buraco, um congestionamento ou o se o caminho está livre. Dificilmente, porém, encontro os deslizes do meu texto e caio, afundo, na superfície de buracos inexistentes. Perco-me no sombrio da indecisão, na confusão das palavras, nas possibilidades da oração. Fico parado, revolto em pensamentos que se sobrepõem, se engarrafam, se congestionam. Por vezes, pior: idéias não andam, mensagens não circulam.

Prossigo.

Quero, ao escrever, encontrar os sinais abertos, para construir minha história livremente. Ainda que estejam fechados, quero ter a certeza de que posso esperar tranqüilo que, dali a um certo tempo, eles se abrirão, e eu retomarei a minha trilha de onde parei. Não compreendo. Ao me conduzir nas estradas da literatura, enxergo sinais que se transformam em placas proibindo-me a passagem. Ou desviando a via, que se apaga à minha frente para ressurgir em direções inesperadas. Indicando, ainda, trechos sinuosos, pista escorregadia. Cavaletes de dificuldade.

Desafio.

Arrisco-me a ultrapassar os sinais. Desvio das bifurcações da língua, encosto em termos, expressões e dou seguimento às vírgulas. Não raro, tropeço nas linhas, chego cambaleante aos pontos finais e, inerte, vejo escorrer lentamente o sentido das frases para fora das margens do papel. Na contra-mão, armo o acidente entre os vocábulos, quebro o elo entre eles e os reduzo a nada.

Respeito.

Quero escrever sentindo a segurança de um cinto que me prende à cadeira, pronto para me proteger frente ao inevitável. Escutando o som escolhido por mim, no rádio, e com a marcha que regula a velocidade ao alcance das mãos. No texto, a proteção me algema, o conforto me esconde a criação. Fico... preso. O limite me provoca... se insinua e me pede para vencê-lo. Mas ele se estende, muda de lugar e, quando noto, corre diante de mim. O som da mente é um barulho de vozes vividas, ouvidas, observadas que me contam histórias reais, imaginárias e desejadas. Ruídos que não controlo, volumes oscilantes.

Percebo.

Quando escrevo, a distância percorrida é quase nula, pois dedico grande parte do tempo a colocar as letras e, em seguida, apagá-las rapidamente. A impor a palavra e, logo depois, bani-la. O movimento se repete até que, às vezes, finjo esquecer de apagar.

Sinto-me multado em minhas convicções.
Derrapo nas curvas da técnica.
Freio cada uma das inspirações...

...Para, a seguir, acelerá-las.

Nos obstáculos, crio a minha voz.
Enfrento o destino.
Faço da vida o meu combustível.

Transformo sinais em pontos de partida.
Redobro os esforços.
Encontro brechas nos congestionamentos.
Exploro o breu das vielas, dos becos, e chego ao final das ruas sem saída.
Dou-me o prazer de perder os caminhos e virar nas esquinas que desconheço

Ilumino a escuridão e descubro que é assim que as palavras brotam, o texto cresce, a história se conta.

Mas não incorporo a certeza: se renego as dúvidas, elas me derrotam.

Repudio meu lugar de piloto.

Afinal, escrever não é dirigir. É perder o controle.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

É tarde?

A palavra veio.
Sim.
Ressoou sentimento.
Tilintou paixão.
Vestiu-se de possibilidade.
Anunciou promessas outrora adormecidas.
Resgatou vontades antes afogadas.
Respirou ares de um vento deslizado no pretérito.
Suspirou desejo.
Assoprou resposta.
Sacudiu dúvidas.
E paixão.

O verbo esbarrou na porta.
Do tempo.
Deu de cara com as horas desconexas.
De frente para o presente.
De alma para o passado.
Deslocado na dimensão da realidade, sobrou-lhe o apelo.
O resquício da gravidade de corpos afastados.
De poder, virou esperança.
De domínio, fez-se escravo.
Virou espera.
Depois, medo.
Enfim, ânsia.
Implorou a metamorfose dos fatos.
Clamou milagre da compaixão.
O subterfúgio dos desesperados.

A frase se locupletou.
De vazio.
O silêncio se elegeu.
Brindou o olhar.
Esfriou a mente.
Imobilizou fonemas.
Tardou a ação.
Encontrou desencontro.
A reação ignorou a troca.
Parada, distante do momento,
ausente do enlace,
afastada da recaída,
mas presa ao querer.
Rendida pela saudade de uma chance sonegada.
Algemada pela ocasião de uma morte anulada.

Lados opostos.
Ímãs humanos.
Separados pelo fosso cavado entre ímpeto e rejeição.
No labirinto do destino, a saída quebrou.
A chave do risco não abriu insegurança.
Proposta degustou rejeição.
Janela se abriu ao prazer.
Mas se fechou ao horizonte do medo.
A distância embalou o amanhã.

Reticências viveram o sono.
Ilusões povoaram os sonhos.
Insônia do desengano.


Mas o acaso falou.
Ecoou no repente.
Acordou reencontro.
Desdisse sina.
Reviveu nervosismo.
Pôs madrugada diante de confissões.
Recosturou feridas.
Curou desânimos.
Ergueu ponte entre esquecimento e felicidade.
Soergueu fogo.
Erigiu prazer.
Rendeu lascívia.
Ensejou nova rota para voar sobre o abismo solitário da arritmia.

Entre amantes do nunca.
Entre beijos da dúvida.
Entre o nada e o abraço da reconquista do tempo.

É tarde?
Ou a vida dispensa os segundos?

Há somente uma página em branco.
E a história de dois corações a escrever.

terça-feira, 27 de maio de 2008

A vez

Em você o silêncio basta
A vontade se confessa
A razão é só uma injúria
Deflagrada na mudez

Em você o instante some
A eternidade embala o tempo
O segundo atrasa o passo
No desejo da nudez

Em você a sina vive
O destino se recomenda
A emoção suplica a lida
No pulsar da tua tez

Em você o verbo vibra
A palavra se inventa
O verso se consolida
Na rima da insensatez

Em você força fracassa
A dureza estremece
Os olhos se fazem golpe
Na queda de uma sisudez

Em você o mundo finda
O universo recomeça
A vida se alinha
Na regência da tua vez

sexta-feira, 25 de abril de 2008

...

Junto tuas dores e componho
Sinfonia da recaída minha
Somo meus medos e resolvo
Equação de minhas mentiras

Equilibro tensões e vidas
Na balança da realidade
Percorro a linha divisória
Do invisível prazer de ser

Há muitas partidas no jogo
Em que sou peça e jogador
Há movimentos e inércia
No campo das sensações

Subtraio riscos e tenho nada
Do que quero multiplicar
Divido expectativas e sonho
A soma dos desencontros

Orquestro o lance derradeiro
E afino o passo do êxtase
Antes do gozo do acorde
Adormeço o som do ruído

E que bela canção se espalha
Nas contas de uma rodada
Vem a vida, vai a dádiva
Numa troca entrelaçada

Ri somente quem debocha
Das suas próprias jogadas
Acertos e erros são vãos
Viver não é matemática

Só há um cálculo permitido
Na partitura de um esmero
Somar instantes ao presente
Fazer futuro sem pretérito

A inconseqüência é o berço
Dos afortunados...