Chora e bebe a lágrima
Espírito enraivecido
Rumina o som do ódio
Quebra o sonho
Tora o passo
Lamenta a dor da fraqueza
Pede o rumo não tido
Range a insegurança
Sofre a lamúria da tentação
Cobiça o gesto
Inveja teus pares
Fracassa
Cai
Morre
E tenta não atrapalhar
O dia
A manhã
A noite
A conversa
A música
O vento
Vai-te com a tempestade
Dos azares
Respira o cancerígeno gás
Das revoltas quixotescas
Suporta o fado da mentalidade
Acanhada sob a pequenez
Fala baixo tua inconsciência
Silencia o quase
Amarga o veneno das decepções
Engasga o feito frouxo
Da insuficiência
Prostra o insucesso sobre a mesa
Fatia teus rompantes
Corta a agonia
Esquarteja o resto
Da felicidade
Erguida no castelo de cartas
Da tua mesquinhez
Quebra teus delírios
Delira tuas quedas
Atira-te à miséria da inanição
Da tua ambição, da tua gana, da tua meta
Não te mete.
Encolhe.
Cede à sede morna da neutralidade.
Fica invisível.
Desaparece do que não foi
Some da cegueira tua
Enforca tua voz
Na mudez
De quem não se defendeu
Aposenta o futuro
Desmancha um passado
De brancas páginas
Recolhe as letras do porvir
Tranca-te no tropeço
Dos fonemas
No sofisma dos verbos
Na fala negada à tua vontade
Soma recuos a quem nunca andou
Retrocede
Encasula
Vira embrião e se aborta
Ceifa a raiz
Elimina o mal
Nega-te a chance
De reviver teu erro
De reiniciar depressões
Frustra expectativas
Afoga o pranto no sangue
Derramado em vão
Cega a pele
Emudece a vista
Insensibiliza a boca
Ensurdece o cheiro
Queima o ruído
Enterra a ânsia
Censura as perguntas
Escreve o fim
Torra a página seguinte
Da sobrevivência
Decora teus desacertos
Brada
Grita
Grita o pranto
Esperneia o agora
Sufoca o tempo
A inércia, a insensatez, a tristeza
Galopante da eternidade
Subverte desejos
Amortece pesadelos
Dá guarida ao nada
Pensa em vão
Soluça por fatos
Clama a saída
Do desespero
Assiste à inglória
Da alma condenada
Ao cárcere do sofrimento
Algema teu quase riso
No limbo da indiferença
A vida não te viu
A alegria te preteriu
A sedução te ignorou
Os outros, ah... os outros
Espalham gargalhadas
Sobre tua performance insignificante
Sorriem da banca
Do atrevimento, da soberba, da empáfia
Recalcada
Debocham do teu receio,
Da tua mão fria,
Da tua covardia histérica,
Das tuas conquistas miúdas,
Reles, desprezíveis...
Esquece-te de ti
Embarca rumo à lama
De onde brotou tua essência
Aflige-te
Desgosta-te
Dói tua chaga
Sente marejar os olhos
Vai, chora a lágrima despencada
O desfile sobre a tez de cicatrizes
O cortejo fúnebre no contorno dos lábios
O último suspiro no precipício do queixo baixo
Contempla o vôo da ruína
Aclama a ópera do estalido dela no chão...
É ao raso que pertences. Ao submundo do ocaso.
Suicida o sopro de esperança.
Desiste.
Ou, então...
...prometa-se lutar.
Viver ignora definições.
Sobreviva você
para além das palavras...
para além das regras...
para além das amarras...
Somente viva.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Ruge
Ruge o peito imaculado
Na canção que eu te fiz
Chora a mão que ainda insone
Eu te dei, você negou
Rezo só que dor consome
Solidão que jamais quis
Mordo o tempo fatiado
Por amor que se atrasou
Herdo o tudo esvaziado
Só poesia me restou
Verso quando ama come
As sobras de um infeliz
Peço a rima que retome
O que a jura não vingou
E meço os dias no aguardo
Do amor que nos condiz
Caça o olhar ventilado
Pela rima que assoprou
Passa pelo beijo e some
A minh’alma que foi triz
Morre no passado o nome
Que de mel te batizou
Provo do minuto o fado
Que a vida não dá bis
Rosna o passo baqueado
Pela dama de verniz
Pisa no chão que se esconde
Do caminho que já secou
Vento quero que te conte
Excomungaste à raiz
Um instante eternizado
Que num amor se plantou
Late o berço naufragado
Por quem foi e não voltou
Pede o sonho que se banhe
Na ausência em que jazi
Pesadelo já não dorme
Por um canto que faltou
Pra um tempo inacabado
Tu partiste, eu me parti
Na canção que eu te fiz
Chora a mão que ainda insone
Eu te dei, você negou
Rezo só que dor consome
Solidão que jamais quis
Mordo o tempo fatiado
Por amor que se atrasou
Herdo o tudo esvaziado
Só poesia me restou
Verso quando ama come
As sobras de um infeliz
Peço a rima que retome
O que a jura não vingou
E meço os dias no aguardo
Do amor que nos condiz
Caça o olhar ventilado
Pela rima que assoprou
Passa pelo beijo e some
A minh’alma que foi triz
Morre no passado o nome
Que de mel te batizou
Provo do minuto o fado
Que a vida não dá bis
Rosna o passo baqueado
Pela dama de verniz
Pisa no chão que se esconde
Do caminho que já secou
Vento quero que te conte
Excomungaste à raiz
Um instante eternizado
Que num amor se plantou
Late o berço naufragado
Por quem foi e não voltou
Pede o sonho que se banhe
Na ausência em que jazi
Pesadelo já não dorme
Por um canto que faltou
Pra um tempo inacabado
Tu partiste, eu me parti
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Riso solto
O teu sorriso corre solto
Plana alto em madrugada
Espalha charme numa brisa
Voa na palavra dada
O tempo embarca invisível
Saboreia apreensão
Perguntas calam o indizível
Se mesclam na confissão
Eu te descubro e te invento
Num sonho de liberdade
Anseio hora e ilusão
De visitar o teu encanto
Subir ao céu da vontade
E alçar vôo na paixão
Plana alto em madrugada
Espalha charme numa brisa
Voa na palavra dada
O tempo embarca invisível
Saboreia apreensão
Perguntas calam o indizível
Se mesclam na confissão
Eu te descubro e te invento
Num sonho de liberdade
Anseio hora e ilusão
De visitar o teu encanto
Subir ao céu da vontade
E alçar vôo na paixão
Solidão
Solidão é se atirar em poço
que não tem fundo
E descobrir na queda
o fim do mundo
É confinamento
em prisão sem grade,
dar cárcere à vida
e alforria à saudade
A minha dor é procurar
sol no breu da noite
e fazer da esperança tola
a luz de um açoite
E não há alma fina
Na pancada fria
Da escuridão
Onde falta vista
Sobram agonia
E indecisão
A minha dor é refrão teimoso
de uma canção infinita
E desafinada
Desponta em nota solta
Dança no vazio
E tropeça no nada
No salão da vida,
Passo sozinho
na covardia
desavisada
e bailo morto
na ressurreição
de qualquer balada...
Toda palavra sincera
é um poema
Atravessa o papel,
consome e queima
A boca livre do seu portador
Leva meu coração
contigo
Que no peito não há
Mais abrigo
Para quem demitiu
o amor...
que não tem fundo
E descobrir na queda
o fim do mundo
É confinamento
em prisão sem grade,
dar cárcere à vida
e alforria à saudade
A minha dor é procurar
sol no breu da noite
e fazer da esperança tola
a luz de um açoite
E não há alma fina
Na pancada fria
Da escuridão
Onde falta vista
Sobram agonia
E indecisão
A minha dor é refrão teimoso
de uma canção infinita
E desafinada
Desponta em nota solta
Dança no vazio
E tropeça no nada
No salão da vida,
Passo sozinho
na covardia
desavisada
e bailo morto
na ressurreição
de qualquer balada...
Toda palavra sincera
é um poema
Atravessa o papel,
consome e queima
A boca livre do seu portador
Leva meu coração
contigo
Que no peito não há
Mais abrigo
Para quem demitiu
o amor...
domingo, 14 de setembro de 2008
Cinco segundos
São cinco segundos
Dos meus olhos
À tua alma
São cinco segundos
Do meu desejo
À tua sensatez
São cinco segundos
Do meu silêncio
À tua ironia
São cinco segundos
De minha ilusão
À tua nudez
Insisto por cinco segundos
Na eloqüência do ardor
E você, da mudez
Anseio em cinco segundos
Um vulto de heresia
E você, de sisudez
Se por cinco segundos
Eu tomo teus olhos
De vez
É por cinco segundos
Que o meu desvario
Subtrai lucidez
Se por cinco segundos
Eu só possuísse
Tua tez
Viveria cinco segundos
No tempo de quem
Se refez
Seriam cinco segundos
De luxúria, paixão,
Embriaguez
De quem na foz da loucura
Desaguou coração e
Pelo risco se afez.
Dos meus olhos
À tua alma
São cinco segundos
Do meu desejo
À tua sensatez
São cinco segundos
Do meu silêncio
À tua ironia
São cinco segundos
De minha ilusão
À tua nudez
Insisto por cinco segundos
Na eloqüência do ardor
E você, da mudez
Anseio em cinco segundos
Um vulto de heresia
E você, de sisudez
Se por cinco segundos
Eu tomo teus olhos
De vez
É por cinco segundos
Que o meu desvario
Subtrai lucidez
Se por cinco segundos
Eu só possuísse
Tua tez
Viveria cinco segundos
No tempo de quem
Se refez
Seriam cinco segundos
De luxúria, paixão,
Embriaguez
De quem na foz da loucura
Desaguou coração e
Pelo risco se afez.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
De passagem...
Arrisco um verso
sem medo
de recesso
Belisco o tempo
a contento
do vento
Embalo a vida
esquecida
na ferida
Vivo o agora
sem demora
vou embora
Só não morreu
quem foi um eu
enquanto viveu
sem medo
de recesso
Belisco o tempo
a contento
do vento
Embalo a vida
esquecida
na ferida
Vivo o agora
sem demora
vou embora
Só não morreu
quem foi um eu
enquanto viveu
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Costurando...
Cedi à seda
De uma paixão que alinha
Transformei em agulha
A textura d’alma minha
E costurei meus dias
No teu destino
Com os fios dos teus olhos
Tricotei um cobertor
Fiz do abraço um tecido
E o meu aquecedor
Em que me protejo do frio
Onde não há teu amor
Sinto a maciez do algodão
No toque dos teus sonhos
E me é leve a tua mão
Quando cose o linho
Que forra meu coração
E o borda em teu ninho
Eu te invento em botão
Para preencher a casa
Da vestimenta que uso
Quando sinto que a razão
É linha que se desata
Na emoção do teu riso
Aliso tua pele de lã
E te estofo inteira em desejo
Entrelaço a noite com a manhã
No vestuário só do teu beijo
Me esqueço de uma vida sã
Que se descose no devaneio
Nossos corpos traçam luz
Adornados em eternidade
Na linha de um flerte você seduz
E une em nó as duas metades
Que se emendam em ponto-cruz
Entre espíritos e a vontade
Não tem espaço a traça
Que não traça nossos fios
Não há terreno pra ameaça
Que amedronte nosso brio
O que se sutura na graça
Desgraça este desafio
E se o corte insiste
Dividindo a nossa malha
Crio novos modelos
De uma vida que se retalha
Sem rasgar sentimentos
Se renovando com a batalha
Emendo as fibras soltas
E amarro teu corpo ao meu
Uno matéria, costuro planos
Em fazenda que me prometeu
Cobrir o futuro com um pano
Que fez da estampa você e eu
De uma paixão que alinha
Transformei em agulha
A textura d’alma minha
E costurei meus dias
No teu destino
Com os fios dos teus olhos
Tricotei um cobertor
Fiz do abraço um tecido
E o meu aquecedor
Em que me protejo do frio
Onde não há teu amor
Sinto a maciez do algodão
No toque dos teus sonhos
E me é leve a tua mão
Quando cose o linho
Que forra meu coração
E o borda em teu ninho
Eu te invento em botão
Para preencher a casa
Da vestimenta que uso
Quando sinto que a razão
É linha que se desata
Na emoção do teu riso
Aliso tua pele de lã
E te estofo inteira em desejo
Entrelaço a noite com a manhã
No vestuário só do teu beijo
Me esqueço de uma vida sã
Que se descose no devaneio
Nossos corpos traçam luz
Adornados em eternidade
Na linha de um flerte você seduz
E une em nó as duas metades
Que se emendam em ponto-cruz
Entre espíritos e a vontade
Não tem espaço a traça
Que não traça nossos fios
Não há terreno pra ameaça
Que amedronte nosso brio
O que se sutura na graça
Desgraça este desafio
E se o corte insiste
Dividindo a nossa malha
Crio novos modelos
De uma vida que se retalha
Sem rasgar sentimentos
Se renovando com a batalha
Emendo as fibras soltas
E amarro teu corpo ao meu
Uno matéria, costuro planos
Em fazenda que me prometeu
Cobrir o futuro com um pano
Que fez da estampa você e eu
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Dirigir
Quero escrever como dirijo um carro. Ir de uma faixa a outra apenas com um leve esforço de mãos habilidosas. E olhando, furtivo, no retrovisor para evitar transtornos. Não! Para escrever não basta isso. O retrovisor, muitas vezes, nos mostra imagens que imobilizam as mãos e vencem nossos esforços.
Insisto.
Quero começar e terminar uma linha do mesmo jeito que vou de carro de um destino a outro. Mas, toda vez que começo a escrever, surgem novos caminhos, novas avenidas, novas estradas. Acabo perdendo a minha rota e me descubro sem destino.
Persisto.
Quero saber o que vou encontrar quando virar a esquina. Se existe um buraco, um congestionamento ou o se o caminho está livre. Dificilmente, porém, encontro os deslizes do meu texto e caio, afundo, na superfície de buracos inexistentes. Perco-me no sombrio da indecisão, na confusão das palavras, nas possibilidades da oração. Fico parado, revolto em pensamentos que se sobrepõem, se engarrafam, se congestionam. Por vezes, pior: idéias não andam, mensagens não circulam.
Prossigo.
Quero, ao escrever, encontrar os sinais abertos, para construir minha história livremente. Ainda que estejam fechados, quero ter a certeza de que posso esperar tranqüilo que, dali a um certo tempo, eles se abrirão, e eu retomarei a minha trilha de onde parei. Não compreendo. Ao me conduzir nas estradas da literatura, enxergo sinais que se transformam em placas proibindo-me a passagem. Ou desviando a via, que se apaga à minha frente para ressurgir em direções inesperadas. Indicando, ainda, trechos sinuosos, pista escorregadia. Cavaletes de dificuldade.
Desafio.
Arrisco-me a ultrapassar os sinais. Desvio das bifurcações da língua, encosto em termos, expressões e dou seguimento às vírgulas. Não raro, tropeço nas linhas, chego cambaleante aos pontos finais e, inerte, vejo escorrer lentamente o sentido das frases para fora das margens do papel. Na contra-mão, armo o acidente entre os vocábulos, quebro o elo entre eles e os reduzo a nada.
Respeito.
Quero escrever sentindo a segurança de um cinto que me prende à cadeira, pronto para me proteger frente ao inevitável. Escutando o som escolhido por mim, no rádio, e com a marcha que regula a velocidade ao alcance das mãos. No texto, a proteção me algema, o conforto me esconde a criação. Fico... preso. O limite me provoca... se insinua e me pede para vencê-lo. Mas ele se estende, muda de lugar e, quando noto, corre diante de mim. O som da mente é um barulho de vozes vividas, ouvidas, observadas que me contam histórias reais, imaginárias e desejadas. Ruídos que não controlo, volumes oscilantes.
Percebo.
Quando escrevo, a distância percorrida é quase nula, pois dedico grande parte do tempo a colocar as letras e, em seguida, apagá-las rapidamente. A impor a palavra e, logo depois, bani-la. O movimento se repete até que, às vezes, finjo esquecer de apagar.
Sinto-me multado em minhas convicções.
Derrapo nas curvas da técnica.
Freio cada uma das inspirações...
...Para, a seguir, acelerá-las.
Nos obstáculos, crio a minha voz.
Enfrento o destino.
Faço da vida o meu combustível.
Transformo sinais em pontos de partida.
Redobro os esforços.
Encontro brechas nos congestionamentos.
Exploro o breu das vielas, dos becos, e chego ao final das ruas sem saída.
Dou-me o prazer de perder os caminhos e virar nas esquinas que desconheço
Ilumino a escuridão e descubro que é assim que as palavras brotam, o texto cresce, a história se conta.
Mas não incorporo a certeza: se renego as dúvidas, elas me derrotam.
Repudio meu lugar de piloto.
Afinal, escrever não é dirigir. É perder o controle.
Insisto.
Quero começar e terminar uma linha do mesmo jeito que vou de carro de um destino a outro. Mas, toda vez que começo a escrever, surgem novos caminhos, novas avenidas, novas estradas. Acabo perdendo a minha rota e me descubro sem destino.
Persisto.
Quero saber o que vou encontrar quando virar a esquina. Se existe um buraco, um congestionamento ou o se o caminho está livre. Dificilmente, porém, encontro os deslizes do meu texto e caio, afundo, na superfície de buracos inexistentes. Perco-me no sombrio da indecisão, na confusão das palavras, nas possibilidades da oração. Fico parado, revolto em pensamentos que se sobrepõem, se engarrafam, se congestionam. Por vezes, pior: idéias não andam, mensagens não circulam.
Prossigo.
Quero, ao escrever, encontrar os sinais abertos, para construir minha história livremente. Ainda que estejam fechados, quero ter a certeza de que posso esperar tranqüilo que, dali a um certo tempo, eles se abrirão, e eu retomarei a minha trilha de onde parei. Não compreendo. Ao me conduzir nas estradas da literatura, enxergo sinais que se transformam em placas proibindo-me a passagem. Ou desviando a via, que se apaga à minha frente para ressurgir em direções inesperadas. Indicando, ainda, trechos sinuosos, pista escorregadia. Cavaletes de dificuldade.
Desafio.
Arrisco-me a ultrapassar os sinais. Desvio das bifurcações da língua, encosto em termos, expressões e dou seguimento às vírgulas. Não raro, tropeço nas linhas, chego cambaleante aos pontos finais e, inerte, vejo escorrer lentamente o sentido das frases para fora das margens do papel. Na contra-mão, armo o acidente entre os vocábulos, quebro o elo entre eles e os reduzo a nada.
Respeito.
Quero escrever sentindo a segurança de um cinto que me prende à cadeira, pronto para me proteger frente ao inevitável. Escutando o som escolhido por mim, no rádio, e com a marcha que regula a velocidade ao alcance das mãos. No texto, a proteção me algema, o conforto me esconde a criação. Fico... preso. O limite me provoca... se insinua e me pede para vencê-lo. Mas ele se estende, muda de lugar e, quando noto, corre diante de mim. O som da mente é um barulho de vozes vividas, ouvidas, observadas que me contam histórias reais, imaginárias e desejadas. Ruídos que não controlo, volumes oscilantes.
Percebo.
Quando escrevo, a distância percorrida é quase nula, pois dedico grande parte do tempo a colocar as letras e, em seguida, apagá-las rapidamente. A impor a palavra e, logo depois, bani-la. O movimento se repete até que, às vezes, finjo esquecer de apagar.
Sinto-me multado em minhas convicções.
Derrapo nas curvas da técnica.
Freio cada uma das inspirações...
...Para, a seguir, acelerá-las.
Nos obstáculos, crio a minha voz.
Enfrento o destino.
Faço da vida o meu combustível.
Transformo sinais em pontos de partida.
Redobro os esforços.
Encontro brechas nos congestionamentos.
Exploro o breu das vielas, dos becos, e chego ao final das ruas sem saída.
Dou-me o prazer de perder os caminhos e virar nas esquinas que desconheço
Ilumino a escuridão e descubro que é assim que as palavras brotam, o texto cresce, a história se conta.
Mas não incorporo a certeza: se renego as dúvidas, elas me derrotam.
Repudio meu lugar de piloto.
Afinal, escrever não é dirigir. É perder o controle.
sexta-feira, 30 de maio de 2008
É tarde?
A palavra veio.
Sim.
Ressoou sentimento.
Tilintou paixão.
Vestiu-se de possibilidade.
Anunciou promessas outrora adormecidas.
Resgatou vontades antes afogadas.
Respirou ares de um vento deslizado no pretérito.
Suspirou desejo.
Assoprou resposta.
Sacudiu dúvidas.
E paixão.
O verbo esbarrou na porta.
Do tempo.
Deu de cara com as horas desconexas.
De frente para o presente.
De alma para o passado.
Deslocado na dimensão da realidade, sobrou-lhe o apelo.
O resquício da gravidade de corpos afastados.
De poder, virou esperança.
De domínio, fez-se escravo.
Virou espera.
Depois, medo.
Enfim, ânsia.
Implorou a metamorfose dos fatos.
Clamou milagre da compaixão.
O subterfúgio dos desesperados.
A frase se locupletou.
De vazio.
O silêncio se elegeu.
Brindou o olhar.
Esfriou a mente.
Imobilizou fonemas.
Tardou a ação.
Encontrou desencontro.
A reação ignorou a troca.
Parada, distante do momento,
ausente do enlace,
afastada da recaída,
mas presa ao querer.
Rendida pela saudade de uma chance sonegada.
Algemada pela ocasião de uma morte anulada.
Lados opostos.
Ímãs humanos.
Separados pelo fosso cavado entre ímpeto e rejeição.
No labirinto do destino, a saída quebrou.
A chave do risco não abriu insegurança.
Proposta degustou rejeição.
Janela se abriu ao prazer.
Mas se fechou ao horizonte do medo.
A distância embalou o amanhã.
Reticências viveram o sono.
Ilusões povoaram os sonhos.
Insônia do desengano.
Mas o acaso falou.
Ecoou no repente.
Acordou reencontro.
Desdisse sina.
Reviveu nervosismo.
Pôs madrugada diante de confissões.
Recosturou feridas.
Curou desânimos.
Ergueu ponte entre esquecimento e felicidade.
Soergueu fogo.
Erigiu prazer.
Rendeu lascívia.
Ensejou nova rota para voar sobre o abismo solitário da arritmia.
Entre amantes do nunca.
Entre beijos da dúvida.
Entre o nada e o abraço da reconquista do tempo.
É tarde?
Ou a vida dispensa os segundos?
Há somente uma página em branco.
E a história de dois corações a escrever.
Sim.
Ressoou sentimento.
Tilintou paixão.
Vestiu-se de possibilidade.
Anunciou promessas outrora adormecidas.
Resgatou vontades antes afogadas.
Respirou ares de um vento deslizado no pretérito.
Suspirou desejo.
Assoprou resposta.
Sacudiu dúvidas.
E paixão.
O verbo esbarrou na porta.
Do tempo.
Deu de cara com as horas desconexas.
De frente para o presente.
De alma para o passado.
Deslocado na dimensão da realidade, sobrou-lhe o apelo.
O resquício da gravidade de corpos afastados.
De poder, virou esperança.
De domínio, fez-se escravo.
Virou espera.
Depois, medo.
Enfim, ânsia.
Implorou a metamorfose dos fatos.
Clamou milagre da compaixão.
O subterfúgio dos desesperados.
A frase se locupletou.
De vazio.
O silêncio se elegeu.
Brindou o olhar.
Esfriou a mente.
Imobilizou fonemas.
Tardou a ação.
Encontrou desencontro.
A reação ignorou a troca.
Parada, distante do momento,
ausente do enlace,
afastada da recaída,
mas presa ao querer.
Rendida pela saudade de uma chance sonegada.
Algemada pela ocasião de uma morte anulada.
Lados opostos.
Ímãs humanos.
Separados pelo fosso cavado entre ímpeto e rejeição.
No labirinto do destino, a saída quebrou.
A chave do risco não abriu insegurança.
Proposta degustou rejeição.
Janela se abriu ao prazer.
Mas se fechou ao horizonte do medo.
A distância embalou o amanhã.
Reticências viveram o sono.
Ilusões povoaram os sonhos.
Insônia do desengano.
Mas o acaso falou.
Ecoou no repente.
Acordou reencontro.
Desdisse sina.
Reviveu nervosismo.
Pôs madrugada diante de confissões.
Recosturou feridas.
Curou desânimos.
Ergueu ponte entre esquecimento e felicidade.
Soergueu fogo.
Erigiu prazer.
Rendeu lascívia.
Ensejou nova rota para voar sobre o abismo solitário da arritmia.
Entre amantes do nunca.
Entre beijos da dúvida.
Entre o nada e o abraço da reconquista do tempo.
É tarde?
Ou a vida dispensa os segundos?
Há somente uma página em branco.
E a história de dois corações a escrever.
terça-feira, 27 de maio de 2008
A vez
Em você o silêncio basta
A vontade se confessa
A razão é só uma injúria
Deflagrada na mudez
Em você o instante some
A eternidade embala o tempo
O segundo atrasa o passo
No desejo da nudez
Em você a sina vive
O destino se recomenda
A emoção suplica a lida
No pulsar da tua tez
Em você o verbo vibra
A palavra se inventa
O verso se consolida
Na rima da insensatez
Em você força fracassa
A dureza estremece
Os olhos se fazem golpe
Na queda de uma sisudez
Em você o mundo finda
O universo recomeça
A vida se alinha
Na regência da tua vez
A vontade se confessa
A razão é só uma injúria
Deflagrada na mudez
Em você o instante some
A eternidade embala o tempo
O segundo atrasa o passo
No desejo da nudez
Em você a sina vive
O destino se recomenda
A emoção suplica a lida
No pulsar da tua tez
Em você o verbo vibra
A palavra se inventa
O verso se consolida
Na rima da insensatez
Em você força fracassa
A dureza estremece
Os olhos se fazem golpe
Na queda de uma sisudez
Em você o mundo finda
O universo recomeça
A vida se alinha
Na regência da tua vez
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